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Praticando…

Abril 27, 2008

Acho que hora chega de reconhecer e assumir a própria pregação. Eu tenho tidos uns acessos prazerosamente afirmativos ultimamente (é a ajuda da filosofia, do zen e da mitologia grega — meus atuais principais alambiques de praticação de mim). Graças a deus (que aqui é nada mais do que força de expressão) tenho podido não só me afirmar mais, como também simplesmente afirmar mais. Um possivelmente seja efeito do outro. Sendo assim sinto-me impulsionada a abrir o jogo e deixá-los saber a que venho, conforme eu mesma vou sabendo — muitas vezes, aliás, eu mesma só venho a saber no momento da tentativa de falar-lhes.

Os gregos antigos, aprendi, chamavam de parresia o que podemos chamar de um veridizer. É mais do que uma “sinceridade”, é um dizer que é a pura enunciação de um modo de ser. A parresia opunha-se à retórica; o veridizer ao bem-dizer. A parresia é um falar que não se submete à vontade de agradar ao outro, tanto menos à vontade de convencer (dominar) o outro. Os latinos traduziram parresia: libertas. Libertas no duplo sentido da liberdade no dizer: o dizente não se submete ao outro; o dizente não deseja submeter o outro. O oposto da retórica — que é técnica de dizer exatamente aquilo que o outro quer ouvir com a meta de convencer. Nesse caso a fala se submete ao outro; a fala submete o outro. A fala retórica é absolutamente oca e nela tampouco há liberdade. Michel Foucault dirá: a parresia é a condição da real autonomia. Estudando com ele a linguagem vamos aprender que o sujeito da enunciação constrói-se no seu enunciar, e pelo tipo de seu enunciado. O sujeito livre, autônomo, constrói-se no seu discurso livre, verdadeiro; constrói-se no seu veridizer. Discurso verdadeiro, discurso parresiasta, é aquele em que o dizer é a mera formalização do fazer — ou seja, dizer e fazer (dizer e ser) correspondem diretamente. Nesse contexto simplesmente não existe abismo entre “teoria” e “prática”. Até porque falar é, tanto quanto qualquer outra, uma prática. É possível que seja uma prática verdadeira, espontânea e livre; é possível que seja uma prática submetida. Deleuze vai ler o Foucault depois e dizer: veridizer é dar vazão ao desejo. Se o desejo tem conteúdo e expressão, dizer a verdade do si sem constrangimentos é afirmar seu desejo.

Veridigo: Adorei esse papo.

Esse curso que estamos fazendo lá no Museu da República com o professor Auterives está tratando neste momento de um estudo do Foucault a respeito do que ele chama de o cuidado de si, mais precisamente, as práticas de si. Nós nos práticamos, e se praticar é se construir. Eu diria “reconstruir” — adapta-se ao contexto em que nos entendemos como sujeitos já construídos que modificam-se somente mediante “re-construção” –, mas prefiro tirar o “re”, que considero desnecessário se entendemos que todo instante é instante de auto-construção. Estamos constantemente nos construindo. Porém o substancialismo psíquico deste nosso tempo modula nossa construção para uma tentativa desesperada por constituição de identidade, auto-imagem. Ali onde seria o espaço da auto-construção, o que se termina por realizar é um eterno esforço louco por auto-afirmação. Resulta que permanecemos nos reafirmando, queremos agarrar nossa identidade numa esperança de sentirmo-nos em paz. Mas que delírio vão! Vários caminhos diferentes nos apontam para o óbvio ululante de que a realidade é impermanência. Puro devir. E tentar agarrar e amarrar nossa identidade é tão vão quanto tentar agarrar qualquer outra coisa. Havemos que surfar. Imagina só tentar represar a onda! É cena de um filme de comédia trapalhão. Aquilo em nós mesmos que fazemo-nos crer necessitar de “reconstrução” é aquilo que em nosso discurso interno a respeito de nós mesmos acabamos por cristalizar. Mas só o discurso pode ter pretenções de cristalização, porque o ser é, como já dissemos, pura impermanência, puro devir, puro becoming, constante poiese. E o discurso que postula algo diferente do ser, se não é retórico, é ingênuo. Uma ética fundada sobre tal discurso está partida. Fadada ao fracasso. Eis a angústia.

Há infinitas formas de práticas de si. Foi atualmente, no meio dessas três trilhas em que vi que estava (dentre também tantas outras), que pude perceber que a análise, psicanálise, ou as psicoterapias são apenas um espaço de trabalho do si. Há tantos quantos se possa inventar.

Coisa boa de blog é não ter cobrança por um formato. Estes dias vi o filme mais indigesto da minha vida, Baixio das Bestas. Nada naquele filme me dá vontade de repetir ou de ver de novo, mas agora lembrei de uma cena, um requinte do Cláudio Assis, dentro de um cinema pornô abandonado, dentre seus amigos pitboys da zona da mata, o personagem do Matheus Naschtergaele vira e fala “Sabe o que que eu gosto no cinema?” e seus olhos encontram a câmera, e ele fala direto pra nós: “No cinema você pode fazer o que você quiser.”

Aqui no blog também é assim. Não tem tantos recursos, o impacto é certamente muito menor… Mas até certo ponto, pelo menos no plano do discurso, o legal do blog é que você pode fazer o que você quiser. Nos buracos do meu saturado calendário semanal que eu sigo meio às tortas eu vou tentando fazer uso de mais esta amigável ferramenta.

Eu comecei a dizer isso porque quis encerrar meu falatório sem desfecho. Aqui é bom porque eu posso fazer isso. Cada post não pretende ser nada além daquilo que é. Ou quem sabe às vezes até pretenda, mas ele não precisa pretender. Não me obriga a formatar meu conteúdo segundo padrão formal, deixa as palavras dispostas mesmo do jeito que elas vierem…! É bom ter um espaço pra exercitar dizer sem compromisso. Fica mais fácil a prática da parresia aqui.

 

(E os estóicos eram zen-budistas)

Março 29, 2008

“Quando você toca uma coisa com profunda percepção, você toca tudo. O mesmo é válido para o tempo. Quando você toca um momento com profunda percepção, toca todos os momentos. Tocando o presente, você entra em contato com o passado e o futuro ao mesmo tempo. Você toca globalmente a eternidade do tempo, a suprema dimensão da realidade.

Quando você toma uma xícara de chá intensamente, você toca o momento presente e o tempo na sua integridade. Foi o que fez São Francisco, ao tocar a amendoeira com tamanha profundidade que pôde vê-la florindo, mesmo em pleno inverno. Ele transcendeu o tempo.”

-Thich Nhat Hanh

Arte sem arte.

Março 29, 2008

É a arte do (arqueiro) zen.

Necessidade

Março 29, 2008

Tudo o que se passa é o que se passa.

(só se passa aquilo que se passa)

Todos os acontecimentos são necessários — simplesmente pelo fato de que somente há o que há.

Toda e qualquer unidade existe em acoplamento estrutural com o todo.

Todas as unidades são “pequenos todos”, formados por outras unidades e compreendidos dentro de outro(s) todo(s). Dessa maneira se compõe tudo o quanto existe. A realidade é fractálica.

Tudo é composto; tudo se compõe (e recompõe) a cada instante e eternamente a partir de uma dinâmica circular e constante de mútua interferência.

(não existe desajuste)

A dinâmica da realidade é o plano de atualização do princípio uno da existência.

Toda a estrutura fractálica e de eterno devir da realidade é, em essência, um uno – O Uno.

 

 

 

02 de março de 2008