Aos poucos venho sendo induzida a pensar que a coisa mais espantosa, incrível e misteriosa – no seu nível mais primordial e primeiro — que veio a ter existência no mundo é a memória.
Os buracos negros não me espantam. A existência do que chamamos de “vida” não me espanta. Me espanta o meta-mundo da linguagem. Me espanta a subjetividade. Indo fundo, na raiz da questão, eu me deparo com o elemento mais espantoso, condição das duas últimas: a memória.
O que raios é a memória, como ela se dá? Em seu momento mais primordial? Ali antes da gênese da subjetividade. Alguém sabe?
Tags: memória
Abril 28, 2008 às 10:12 pm
Você fazendo seu conceito de memória engloar o seu conceito de existir. Não é errado ou contraditório, mas é uma interpretação. Eu só não diria que ela é mais espantosa que existir por que você esta pensando nela como no existir.
Agora é impossível saer o que é a memória. Podemos roubar e fingir, apelar e sentir para responder, mas nunca vai satisfazer a razãozinha chata que dá voltas em si mesma. Pensando do ponto de vista científico a memória é energia. Uma resposta até um pouco poética para acompanhar a pergunta.
Abril 29, 2008 às 12:22 am
tô em dúvida se você entendeu o que eu tava dizendo no início, então refiz a redação, tava ambígua mesmo (possivelmente ainda esteja, não sei consertar)
A memória pra mim não engloba o existir não. O existir independe da memória! O que depende da memória é a subjetividade. A linguagem.
A memória é algo que existe, assim como muitas outras coisas. Só que é uma coisa cuja existência é muito espantosa.
Agora, como assim a memória é energia?
Abril 29, 2008 às 1:39 am
São raios que são interpretados pelo cérebro, pequenos choques.
Abril 29, 2008 às 10:16 am
Bom dia Julie, tenho a mesma fascinação pela memoria que é inseparavel do problema do tempo em geral. Quando falamos em mémoria no sentido amplo do termo, pensamos numa faculdade de retenção de imagens (de onde nasce a linguagem como essa potencia de referência entre um objeto dado no mundo e um signo, para falar de maneira um pouco grosseira e rapida, e por consequencia imprecisa). Na ciencia abundam estudos sobre memoria voluntaria, memoria involuntaria, curta, longa,mas qualquer que seja o tipo ela ai é considerada como essa faculdade obviamente imprescindivel, entretanto demasiadamente simples, abstrata de tratar algo que sentimos ultrapassar completamente a mera capacidade de retenção de dados (fenomenos cerebrais que a ciência busca reproduzir com as maquinas informaticas, e que não se configura como utopia pois o principio de retenção pode ser realizado seja sobre um suporte organico, seja sobre um suporte de silicio, alias, este ultimo se mostra até mais promissor…). Mas la onde a ciência alcança o maximo de sucesso, é onde a mémoria ganha um outro sentido, que ja nao pode ser explicado pela ciencia, mas exige as potências ou da arte, ou da filosofia, as vezes das duas juntas. A ciencia talvez toque esse problema mas ai ja nao é pela via dos estudos da mémoria, mas talvez pela fisica (porem nao ouso falar, primeiro porque desconheço, segundo pelo que baliza a disciplina cientifica, quero dizer ela busca construir um quadro explicativo para dar uma referencia ao caos, porem a memoria no sentido mais profundo implica necessariamente a abandono da referencia e so ganha consistencia num outro plano, ao qual a filosofia e a arte podem aceder). Esse segundo sentido da mémoria concerne o tempo como eternidade ou a verdade eterna do tempo. Como se a nossa memoria fosse uma comunicação imediata com uma gigantesca memoria ontologica como diz Deleuze e pela qual todos os seres sao atravessados por uma linha comum que ao mesmo tempo os distingue (animal, pedra, estrela) e os reune (eu sou a agua e os minerais que me compoem, e eles ja sao ja compostos de elementos ainda mais larvares que estao presente no cosmo de modo que cada ser parece ser a dobra de outro seres numa serie que vai do melecular ao cosmico). Uma leitura linda que vai nessa direção é a do Bergson, no livro Matéria e Memoria, Deleuze tambem no Diferença e repetiçao trata de maneira bastante consistente do problema do tempo e da memoria, quando ele fala nas tres sinteses do tempo. Nos passamos a maior parte do tempo na primeira sintese e o que chamam de “barato” no caso de algumas substancias alucinogenas nada sao senao experiencias que nos fazem visializar a possibilidades de outras sinteses, porem fracassam sempre (ate porque se nao fracassassem nao precisariamos usar de novo). A filosofia, a arte, nos dao o plano e uma vez nele podemos manusear como bem queremos as sinteses. Escrevi isso na minha dissertaçao de mestrado, que sonho com o dia em que todos irao manusear a filosofia, a arte, como sintetizadores e o mundo como imensa realidade plastica, virtualidade pura, ou seja, material…Ha quem viva assim, ha tantas doses de sofrimentos indiziveis em tais modos de vida como tambem alegrias desconhecidas.
Cordialmente, C.L.
Abril 29, 2008 às 1:12 pm
Totalmente Don Huan esse comentário.
Maio 5, 2008 às 3:51 pm
eu sei que pelas minhas aulas de neurofisiologia não há nenhum lugar no cérebro que se destine a memória.. e olha que tem lugar no cérebro pra burro.
Maio 5, 2008 às 3:54 pm
vi que existem outros(as) jubas no mundo do seu blog, no caso aqui em cima, é eu, jujuba
Maio 5, 2008 às 11:15 pm
Mas Ju.
A memória é um ente absolutamente dependente dos registros que as coisas deixam nas outras, sob a forma que forem. Uma pedra bate na outra e quebra um pedacinho: aí está um registro. Um filme é impressionado pela luz e forma-se ali uma imagem: está aí outro registro. E os registros sozinhos não valem de muito. O uso de um registro com a consciência de que é um registro, bem, aí começa a se definir alguma memória. É o geólogo que vai lá tirar um pedaço do solo pra analisar e descobrir do que é formado em várias camadas: está usando um registro (que ele sabe que é um registro).
Essa coisa do cérebro não ter um lugar específico pra memória é na verdade mais simples do que parece: todo lugar é lugar de memória, porque as conexões existentes e inexistentes (com a intensidade com que existirem) são os registros. A coisa é que o ser humano tem consciência de que ali está um registro, num nível muito rudimentar ainda.
; )